Contos

Noites sem fim

Estou desde às 23h30min acordado. Dormi praticamente duas horas. Já são 4h30min, e nem um sinal de sono. Esboço bocejos ritmados, como se meu corpo fosse se render. Vejo meu filho e minha esposa dormindo plenamente e eu reflito sobre a beleza e a aflição. Logo mais irei ao trabalho, às 7h. Como todos os dias, receberei reprimendas do patrão, que nunca está satisfeito com o trabalho – e ter de suportar isso com insônia é a pior das dores. Aliás, penso que a insônia é uma combinação, desta vez, com os esporros que levei e a saúde desregulada. O Dr. Josias não tem apreço pelo bem-estar da sua equipe. Não trabalha como os novos advogados, que, na sua maioria, prezam pela saúde mental. Estamos cheios de colegas com depressão, burnout e ansiedade. É o maior sacrifício para que ele conceda férias. Gianini está há mais de um ano sem tirar, e o pior, ela vai vender parte das férias agora, para, depois, passar alguns dias em casa. Tudo isso só me complica, porque vira uma bola de neve. À medida que deixo de dormir, penso que o organismo se acostuma. Só me lembro, nessas horas, do desespero de meu pai, doente de câncer, por não ter conseguido dormir durante a noite. Quantas ele passou em claro… Chorava ao perceber que o sol nascia e não tinha dormido nada. Estou no mesmo caminho. Já tomei melatonina e relaxante muscular, e nada. São pelo menos três noites seguidas de insônia; desta vez, porém, nem mesmo conseguir pregar os olhos por uns instantes. O dia não rende. Você pode ser, inadvertidamente, um sujeito mal-educado e ranzinza. Peço desculpas quando um fato assim acontece. Ontem mesmo, ao dormir cerca de três horas à noite, fui ríspido com um colega que queria tirar uma dúvida processual. Logo me arrependi profundamente e pedi-lhe desculpas, colocando a culpa na falta de sono – só não sei se surtiu efeito. Agora, no tempo em que escrevo, já se passou meia hora. Devo estar em pé já, já, e disposto, às 6h30min. Meu filho vai demandar a minha atenção, como todos os dias o faz pela manhã: “Papai, me ajuda nisso ou naquilo!”. Tenho de preparar a sua farda, a lancheira e a mochila, para que ele, sim, passe um dia ameno e sem percalços. Minha esposa acordará em cima da hora de ir para o trabalho, com a desculpa de ter dormido mal – quando percebo que ronca ao meu lado. Nesse momento, penso na existência, nas possibilidades de mudança, de como poderia ter uma vida mais tranquila e sem preocupações exageradas. Além do mais, sei que viver assim é não viver. É passar pela vida, simplesmente. Meu organismo não desliga. Não paro de pensar, a mente é inquieta, desde a juventude. Dormir, então, está fora de cogitação. Quando o faço, por descuido, é como o céu que se abre para eu deitar, solene, absoluto. O sono é uma espécie de nuvem fugaz. Há uma maneira de agarrá-la? Quero, ainda, quando puder, me derramar na minha rede e dormir sem fim.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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